terça-feira

Star Trek













Ricardo de Souza 19/05/09

J.J. Abrams é um nome a ser lembrado por muito tempo quando falarmos da cultura pop. O ídolo nerd (de um novo tipo de nerd que foge dos fatídicos estereótipos), compreendeu que, após anos bombardeados com obras de ficção científica e cada vez mais próximos tecnologicamente destas (celulares, MP3, touch screens?), a sensação de espanto com o místico e tecnologias inovadoras deve ceder espaço para o ser humano. Não que a ficção científica clássica não tivesse o homem, e todos os seus dilemas e relacionamentos, como seu mais fabuloso objeto de estudo, mas nos últimos anos, e em grande parte por culpa deste diretor e produtor, que grande parte dos espectadores realmente entenderam isso.


Em Lost temos uma avaliação completa do espírito humano (da maldade, bondade, medo, fé) frente a adversidades fantásticas, em Fringe temos o velho debate de moral versus desenvolvimento científico, e Cloverfield é nada mais que um retrato cru sobre o desespero frente à destruição sem explicações (isso sem esquecermos outras obras, como Alias). O importante é que viagens no tempo, monstros de fumaça ou de trinta metros de altura e experimentos paranormais são apenas o cenário que nunca ofuscam a amargura de perder um amigo ou um amor ou o nascimento de um relacionamento de companheirismo.


É isto que também acontece com Star Trek. Abrams reconheceu que a série sempre foi muito mais calcada nos relacionamentos humanos que sua comparação inevitável, Star Wars, e explorou este elemento ao máximo, embora tenha dado a ela finalmente o ar épico que sempre lhe faltou (ironicamente, Star Wars tanto ficou mais estéril quanto diminuiu, a despeito dos efeitos especiais ruidosos, em sua nova trilogia). Mais do que isto, tirou esta belíssima história da mão de seus adoradores exclusivos, os trekkers, e a levou ao grande público (ou parte dele, quem me acompanhou na sessão não entendeu bem tudo...). Inevitável não gostarmos todos destes bravos jovens, que constroem fortes amizades enquanto amadurecem para virarem lendas.


Star Trek (apenas assim, sem subtítulos e sem tradução) narra o nascimento do capitão James T. Kirk e sua infância, bem como a de seu futuro grande amigo Spock. Kirk é um jovem rebelde, mulherengo e arrogante, com completa falta de um senso de responsabilidade, mas com uma brilhante mente militar, que tem que conviver com o fantasma de seu pai, um herói, que foi capitão apenas 12 minutos antes de morrer, mas salvou mais de 800 pessoas, inclusive a esposa e o filho recem-nascido. Já Spock convive com sua dualidade racial (já que é meio humano e meio vulcano), o que o leva conflitos internos e hostilização de seu próprio povo, o que o torna alguém amargo, escondendo-se atrás das exigências da raça de seu pai (já que os Vulcanos devem primar sempre pela lógica). Juntos a outros não menos brilhantes cadetes, os dois embarcam na U.S.S. Enterprise, a jóia da Federação, para seu batismo de fogo contra o vingativo Nero, que voltou no tempo caçando a versão mais velha de Spock.


Embora tenha efeitos especiais de tirar o fôlego e sequências de ação mirabolantes, algo que sempre fez falta tanto na série clássica quanto em seus infinitos derivados, eles nunca ofuscam o palco principal. Assim, por mais impactante que seja a destruição da U.S.S. Kelvin, não podemos deixar de ver o medo em George Kirk ao encarar seu destino final, e a angústia de não poder estar ao lado do filho que acabara de nascer, mas vemos também a certeza de quem salva uma vida (ou 800). Da mesma forma, todos os cadetes e jovens oficiais parecem se esforçar ao máximo para mostrar aos demais porque estão na tripulação da melhor nave da tropa e isto fica nítido a cada olhar ou movimento mais sutil.


Isto só é possível, não apenas pelo bom trabalho de Abrams e de seu diretor de fotografia, que embora tenham um cenário grandioso, insistem em manter a câmera nervosa, em mãos, e quase sempre próxima ao rosto de algum personagem, como também de seu jovem e quase desconhecido elenco. Todos (até mesmo o sempre apagado Eric Bana), estão perfeitos em seus papéis. Mesmo o mais coadjuvante deles tem seu pequeno momento de destaque sobre as luzes (o que é difícil dado o número de personagens), embora o filme, compreensivelmente, se foque mais em Kirk e Spock, desenvolvendo de maneira extraordinariamente orgânica a sua amizade, a partir de um grande estranhamento inicial, conforme reconheçam os traços que têm em comum. O momento em que Kirk tem que brincar com os sentimentos do Vulcano para ter uma vantagem pessoal é logo em seguida marcado por um singelo olhar de auto-reprovação por parte do primeiro. Uma pena que o terceiro elemento da santíssima trindade da Enterprise, o médico Leonard “Magro” McCoy, que sempre completou tão bem esta equação, tenha sido pouco explorado.


Chris Pine (Kirk) tem a grande tarefa de repetir o êxito de William Shatner de criar, de uma forma essencialmente bonachona e quase clichê, um personagem complexo, com um número tão grande de falhas quanto de qualidades, e ainda assim com um forte elo com o público. Desta forma, Pine, consciente do mito com o qual trabalhava, se inspirou na interpretação canastrona de Shatner e mantém até mesmo muitos de seus maneirismos (notem como ele se senta na cadeira do capitão). O carisma do personagem (que deve muito também ao do próprio ator) é ainda mais reforçado pelo extremo azar deste, bem como também por se enquadrar na escola de heróis como Indiana Jones, pois ganha apenas uma das inúmeras lutas corporais nas quais se envolve, e jogando sujo. Além disso, a jogada com o novo sentido para o apelido de McCoy (Magro, ou Bones) mostra um Kirk que, por mais carinhoso que possa ser com os amigos, não perderia uma piada por nada, por mais que ela “toque na ferida”.


Ao seu lado, Zachary Quinto (Spock) é o que tem a maior responsabilidade, ao ter que desempenhar o papel de uma das maiores referências pop de todos os tempos, e é brilhante ao expressar-se bem em três papéis, já que temos um Spock essencialmente emotivo escondendo-se sob a face de um lógico e frio vulcano, resultando em um terceiro personagem. Em minutos ele foi mais capaz de demonstrar amargura e vingança que Hayden Christensen (novamente, Star Wars) em dois longas, sem, no entanto, nos deixar de lembrar que aquele é um homem virtuoso e correto, que apenas está tentando lidar com uma grande série de perdas inestimáveis.


O resto do elenco merece também toda sorte de elogios, pois conseguiu criar personagens tridimensionais e carismáticos por menor que seja seu tempo em tela, e muitos deles até mesmo superam seus moldes originais. Anton Yelchin surpreende como o impúbere e desajeitado Checkov, Karl Urban é impecável como o estourado e reclamão McCoy, servindo muitas vezes como consciência de Kirk, ao mesmo tempo em que sua indulgência com os desejos do amigo fazem este tomar as decisões mais imprudentes. John Cho mantém a eficiência e a elegância de Sulu, enquanto Simon Pegg tem o personagem mais anárquico e engraçado de todos e, mesmo contrariando a regra de que nenhum personagem deve ser introduzido na história ao fim do segundo ou durante o terceiro ato, tem um papel crucial no desenrolar da trama, e sem parecer que é um Deus Ex Machina.


Já Zoe Zaldana surge linda, mas não se apóia apenas em sua beleza, dando à oficial de comunicações Uhura um destaque que nunca teve na fase clássica, aliada a uma força necessária para essa que é a única personagem feminina com real importância. O próprio Abrams também mostrou um certo cuidado com Uhura, sem nem mesmo esquecer do pequeno arco cômico envolvendo seu primeiro nome, que se resolve quase ao final do filme. No entanto, nem tudo são flores, e temos Eric Bana que, mesmo estando em um dos seus melhores papéis (já que apenas uma vez interpretou bem na vida, em Munique), ainda tem um desempenho raso, já que hora nenhuma conseguimos sentir o seu sofrimento.


Os velhos (e alguns fanáticos) fãs podem até reclamar das inovações promovidas por Abrams, mas é inegável que o diretor trapaçeou tão bem quanto Kirk no teste Kobayashi Maru, ao usar da viagem do tempo para justificar a criação de um universo paralelo (ou melhor, linha do tempo alternativa, para os mais específicos) onde as novas aventuras são vividas, graças as alterações promovidas pelo velho Spock e por Nero na linha do tempo original. Assim, embora haja um novo universo para ser explorado, a série clássica está lá, intocada, em seu próprio cantinho no prisma temporal.


Com uma boa dose de humor entre suas cenas mais duras, especialmente com uma deliciosa referência à sempre alta mortandade de camisas-vermelhas (para quem não conhece a praxe, figurante que veste camisa vermelha na série clássica sempre morre. fato), Star Trek traz uma ode a uma amizade que não se encontra mais por aí. Aqueles jovens são nossos sonhos de fidelidade e aventura e, mais do que nunca, será um prazer estar ao seu lado quando forem corajosamente onde nenhum homem jamais esteve. O espaço não é a fronteira final. Nós é que somos.


Vida longa e próspera a todos!

2 comentários:

Luis Carlos disse...

Apesar de não conhecer muito (na verdade nada importante) sobre Star Trek, gostei muito do filme, da composição dos personagens, que pelo pouco que sei estão condizentes com os originais. Quinto ficou maravilhoso de Spock, tanto pela sua semelhança quanto por sua interpretação. McCoy também ficou show. Nunca gostei muito do Karl Urban, mas nesse filme ele se superou. O filme é divertido e tem sequências iradas! Só não gostei muito de Nero. Primeiro porque não gosto do Eric Bana, segundo achei que ficou muito exagerado e ele não conseguiu me convencer de seu sentimento genuíno de vingança, mas eu sou suspeita digo logo. Sem palavras para participação de Leornad Nimoy. Espetacular!

Arthur disse...

A-D-O-R-E-I….., já digo que é um dos melhores filmes de ficção científica que eu já vi! concordo que seja coisa de nerd, mas eu curto exatamente esse aspecto! gostei muito da humildade do diretor tambem! quem puder assista as entrevistas com ele na mtv(tá cada vez mais raro encontrar algo que preste nesse canal, rs)! ele deixa bem claro que se as pessoas gostarem do filme é porque a equipe de efeitos especiais, o elenco e o roteiro foram os responsáveis, e se nao gostarem a culpa é toda dele! esse comportamento messias judaico-cristão do JJ é legal, mas é claro que o mérito é mais dele do que de qualquer um!
Gostaria de ressaltar que o filme não se limitou à ciência e às batalhas! achei um filme muito bonito, essa é a palavra! A história se concentrou bastante no lado humano e emocional, principalmente sobre o spock! Desde quando ele era pequeno e perseguido por seus coleguinhas super-dotados que queriam tirar alguma emoção dele(pois sabiam que ele era filho de mãe humana), até quando ele enfia a porrada no Kirk por ter falado que nao amava a mamãe! Isso tudo passando pelo teste que ele elaborou para testar as habilidades de um capitao que deve fazer a coisa certa ao saber que vai morrer!
Spock é o cara! não há como negar! ele é mais inteligente do que o kirk, mais forte do que a maioria (lembrando que quando crianca ele bateu num vulcaniano maior do que ele) e ainda tem poderes telepáticos a lá Professor Xavier!
As cenas de ação são mesmo de tirar o fôlego, adoro a dos para-quedas! O filme também é engraçado(quando Sulu fala que é mestre em esgrima, todos pensam: “onde esse cara enfiou a maldita espada entao”)
Além de tudo o filme preservou o estilo do figurino utilizado na séria há quatro décadas sem parecer brega!
Um filmaço!